Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009
Sozinho, corno um cão
José Luis Peixoto
Sem querer intimidar-vos, gostaria que soubessem que, além de nós, ela também está a ler esta crónica. É possível que tenha lido estas primeiras linhas numa estação de serviço e, quando percebeu que falavam dela, tenha decidido comprar a revista. Muitas vezes, era isso que fazíamos quando estávamos juntos. É também possível que alguém (um de vós) lhe tenha dito que esta crónica falava nela. Há ainda a possibilidade de ter comprado a revista por acaso e, no sofá da sua casa - um sofá que engole aqueles que se sentam nele - esteja agora a ler esta crónica ao mesmo tempo que nós.
Eu tenho dificuldade em organizar-me. À minha volta, sobre esta mesa comprada no Ikea, nas gavetas atrás de mim, em cima do micro-ondas, existem papéis. Desisti há minutos de procurar a folha onde tinha escrito uma lista de temas que, nas últimas semanas, fui coleccionando e que se destinavam a ser tratados nesta crónica. Tenho a memória visual desse papel, estava cheio. Agora, no entanto, só me recordo daqueles temas que não consigo desenvolver (gripe A, pilhões). Nestas últimas semanas, ao anotar essas ideias, queria evitar esta sensação de fragilidade e derrota. Mas é assim, sou assim. Entre os ossos - costelas e crânio - sou igual a esta mesa e a esta casa. Imaginemos que preciso do envelope do banco com o código secreto do cartão de crédito. Começo a revolver papéis e encontro os bilhetes da visita que fiz ao Portugal dos Pequenitos com as minhas sobrinhas e os meus filhos. Logo a seguir, posso encontrar um cheque de 2003 passado à minha ordem no valor de 50 euros, ou o recibo de um jantar em Matosinhos, ou um bilhete em papel quadriculado, sem nome, caligrafia desconhecida, onde está escrito: estou no quarto 134, vem.
Devo ter ido, claro. Nesse passado, muito antes dela, eu ia quase (quase) sempre. Desse tempo, guardo recibos de gasolina (gasóleo) e portagens, que aparecem quando procuro, por exemplo, a lista de temas que pensei para esta crónica. Eu sei que ela está a ler estas palavras com os seus olhos pequenos, está a segurar esta revista com as seus dedos cheios de anéis, mas não é por isso que eu não queria escrever sobre ela. Quando me disse para nos separarmos, para não voltarmos a falar, fiquei como se tivesse levado com um trapo encharcado de merda na tromba. Lirismo zero, a subtileza emigrou para Marte, ficou apenas a dor esfolada, viva, e eu decidi que não ia pensar nela. Não ia pensar no seu corpo, fininho, delicado, dentro dos meus braços. Não ia pensar na maneira como ela estremecia enquanto sonhava ao meu lado, na minha cama. Não ia pensar nos meus pés a tocarem os seus pés lisos. Não ia pensar no cheiro da sua pele, no cheiro das minhas camisolas depois de ela as usar para dormir, não ia pensar na silhueta do seu corpo enquanto tomava duche ali, na minha casa-de-banho. Não ia pensar que ela dizia sempre «quarto-de-banho». Não ia pensar na maneira como ela dobrava meias, camisolas, pullovers, nem ia pensar que muitas dessas roupas ainda estão aqui, dobradas por ela. Não ia pensar nas horas seguidas, dias inteiros, que passámos juntos a ver o CSI Las Vegas. Não ia pensar nas saladas que ela fazia para nós, não ia pensar em nós a fazermos compras no supermercado ou a tomarmos o pequeno-almoço juntos. Não ia pensar nas nossas vozes, a tratarmo-nos por amor (môr), não ia pensar nas mensagens de telemóvel que ela me enviava a perguntar: tás a trabalhar, amor? Não ia pensar na precisa com que ela estacionava o meu carro, não ia pensar nas viagens de centenas de quilómetros que fazíamos juntos, não ia pensar nos planos que fazíamos, não ia pensar na maneira como nos imaginava com sessenta anos, setenta anos. Não ia pensar na maneira como, uma vez, ela chegou a considerar que, um dia, poderíamos ter filhos juntos. Não ia pensar naquela vez em que eu estava a cantar uma canção da Cássia Eller no trânsito da segunda circular e ela, sem aviso, me deu um beijo no rosto. Não ia pensar na maneira como ela me apertava a mão quando estávamos juntos, sempre de mão dada. Não ia pensar naquilo que ainda sinto por ela, não ia pensar naquilo que ela pode estar a fazer agora (ler esta crónica), não ia pensar que ela me ligava quando tinha dúvidas de gramática ou quando encontrou uma lagartixa (sardanisca) na casa dela. Porque agora ela já não me liga. Deve ter encontrado outra pessoa a quem ligar.
José Luis Peixoto
Sem querer intimidar-vos, gostaria que soubessem que, além de nós, ela também está a ler esta crónica. É possível que tenha lido estas primeiras linhas numa estação de serviço e, quando percebeu que falavam dela, tenha decidido comprar a revista. Muitas vezes, era isso que fazíamos quando estávamos juntos. É também possível que alguém (um de vós) lhe tenha dito que esta crónica falava nela. Há ainda a possibilidade de ter comprado a revista por acaso e, no sofá da sua casa - um sofá que engole aqueles que se sentam nele - esteja agora a ler esta crónica ao mesmo tempo que nós.
Eu tenho dificuldade em organizar-me. À minha volta, sobre esta mesa comprada no Ikea, nas gavetas atrás de mim, em cima do micro-ondas, existem papéis. Desisti há minutos de procurar a folha onde tinha escrito uma lista de temas que, nas últimas semanas, fui coleccionando e que se destinavam a ser tratados nesta crónica. Tenho a memória visual desse papel, estava cheio. Agora, no entanto, só me recordo daqueles temas que não consigo desenvolver (gripe A, pilhões). Nestas últimas semanas, ao anotar essas ideias, queria evitar esta sensação de fragilidade e derrota. Mas é assim, sou assim. Entre os ossos - costelas e crânio - sou igual a esta mesa e a esta casa. Imaginemos que preciso do envelope do banco com o código secreto do cartão de crédito. Começo a revolver papéis e encontro os bilhetes da visita que fiz ao Portugal dos Pequenitos com as minhas sobrinhas e os meus filhos. Logo a seguir, posso encontrar um cheque de 2003 passado à minha ordem no valor de 50 euros, ou o recibo de um jantar em Matosinhos, ou um bilhete em papel quadriculado, sem nome, caligrafia desconhecida, onde está escrito: estou no quarto 134, vem.
Devo ter ido, claro. Nesse passado, muito antes dela, eu ia quase (quase) sempre. Desse tempo, guardo recibos de gasolina (gasóleo) e portagens, que aparecem quando procuro, por exemplo, a lista de temas que pensei para esta crónica. Eu sei que ela está a ler estas palavras com os seus olhos pequenos, está a segurar esta revista com as seus dedos cheios de anéis, mas não é por isso que eu não queria escrever sobre ela. Quando me disse para nos separarmos, para não voltarmos a falar, fiquei como se tivesse levado com um trapo encharcado de merda na tromba. Lirismo zero, a subtileza emigrou para Marte, ficou apenas a dor esfolada, viva, e eu decidi que não ia pensar nela. Não ia pensar no seu corpo, fininho, delicado, dentro dos meus braços. Não ia pensar na maneira como ela estremecia enquanto sonhava ao meu lado, na minha cama. Não ia pensar nos meus pés a tocarem os seus pés lisos. Não ia pensar no cheiro da sua pele, no cheiro das minhas camisolas depois de ela as usar para dormir, não ia pensar na silhueta do seu corpo enquanto tomava duche ali, na minha casa-de-banho. Não ia pensar que ela dizia sempre «quarto-de-banho». Não ia pensar na maneira como ela dobrava meias, camisolas, pullovers, nem ia pensar que muitas dessas roupas ainda estão aqui, dobradas por ela. Não ia pensar nas horas seguidas, dias inteiros, que passámos juntos a ver o CSI Las Vegas. Não ia pensar nas saladas que ela fazia para nós, não ia pensar em nós a fazermos compras no supermercado ou a tomarmos o pequeno-almoço juntos. Não ia pensar nas nossas vozes, a tratarmo-nos por amor (môr), não ia pensar nas mensagens de telemóvel que ela me enviava a perguntar: tás a trabalhar, amor? Não ia pensar na precisa com que ela estacionava o meu carro, não ia pensar nas viagens de centenas de quilómetros que fazíamos juntos, não ia pensar nos planos que fazíamos, não ia pensar na maneira como nos imaginava com sessenta anos, setenta anos. Não ia pensar na maneira como, uma vez, ela chegou a considerar que, um dia, poderíamos ter filhos juntos. Não ia pensar naquela vez em que eu estava a cantar uma canção da Cássia Eller no trânsito da segunda circular e ela, sem aviso, me deu um beijo no rosto. Não ia pensar na maneira como ela me apertava a mão quando estávamos juntos, sempre de mão dada. Não ia pensar naquilo que ainda sinto por ela, não ia pensar naquilo que ela pode estar a fazer agora (ler esta crónica), não ia pensar que ela me ligava quando tinha dúvidas de gramática ou quando encontrou uma lagartixa (sardanisca) na casa dela. Porque agora ela já não me liga. Deve ter encontrado outra pessoa a quem ligar.
Publicada por
Mafalda